Visitante
O quilombola Margem da Linha e seu autorreconhecimento
Sobre a Ação
202203001727
032022 - Ações
Projeto
RECOMENDADA
:
EM ANDAMENTO - Normal
23/04/2026
11/12/2026
Dados do Coordenador
marcio achtschin santos
Caracterização da Ação
Ciências Humanas
Cultura
Direitos Humanos e Justiça
Patrimônio cultural, histórico, natural e imaterial
Municipal
Não
Não
Não
Dentro e Fora do campus
Manhã
Não
Redes Sociais
Site do MUVIM
Membros
A comunidade Margem da Linha, localizada na região oeste de Teófilo Otoni, foi reconhecida como Remanescente de Quilombola em 2023, a partir do projeto de extensão "Conhecendo a história afromucuriense". O grande desafio é a comunidade, especialmente os mais jovens, se autorreconhecerem como quilombola. A proposta do projeto é trabalhar com a comunidade, especialmente as escolas inseridas no território quilombola, eventos que possam resgatar este autorreconhecimento.
Remanescente quilombola, autorreconhecimento, Território Negro.
O Vale do Mucuri, localizado no nordeste do estado de Minas Gerais, até o século XIX era uma região habitada exclusivamente por indígenas, na sua grande maioria os Borun . A partir de meados dos anos de mil e oitocentos ocorreu um intenso fluxo migratório por povos de diversas origens, tanto nacionais como vindo de outros continentes. Esse movimento foi estimulado pela Companhia de Comércio e Navegação do Mucuri, criada em 1847 por Teófilo Benedicto Ottoni, que objetivava fazer a ligação comercial entre o Rio de Janeiro e o Alto Jequitinhonha. A partir desse período, estradas foram criadas, novos modelos econômicos de produção surgiram. Igualmente foi alterada a paisagem, surgindo fazendas, povoados e cidades. Enfim, o Mucuri sofreu profundas mudanças no seu espaço, quase sempre marcadas por uma ocupação violenta e predatória (SANTOS, 2018). Até o fim do século XX, as pesquisas sobre o Mucuri eram pontuais, com poucos registros produzidos na academia. Mas tem havido nas duas últimas décadas um crescente número de trabalhos sobre a formação essa região do nordeste do estado de Minas Gerais. Porém, esse resgate da memória da região, de modo geral, tem sido seletivo, apresentando uma perspectiva de certos grupos em detrimento de outros. A proposta desse projeto é resgatar, a partir da comunidade quilombola Margem da Linha, as diversas manifestações e expressões da cultura dos afrodescendentes do Vale do Mucuri. Essa cultura, aqui chamada de afromucuriense, esteve presente com a Estrada de Ferro Bahia e Minas (EFBM), iniciada em Caravelas (BA), a partir de 1881, se estendendo até Araçuaí (MG). Ao longo da margem da linha foram surgindo comunidades de trabalhadores braçais, a grande maioria ex-escravizados e/ou seus descendentes. Um desses espaços foi a comunidade Margem da Linha, localizado no bairro São Diogo e Palmeiras, na cidade de Teófilo Otoni-MG. Essa comunidade, existente no Brasil a partir de ferroviários e ferroviárias, foi registrada pelo Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (CEDEFES) em 2001, mas não houve até então, nenhum avanço para o reconhecimento desse grupo como quilombola. O principal motivo para não realização desse reconhecimento é pela confirmação de uma ausência de referências identitárias da comunidade. Pelas narrativas de ex-ferroviários da Estrada de Ferro Bahia e Minas e seus parentes, um significativo grupo de moradores da Colônia Leopoldina, hoje distrito de Helvécia, localizada no sul da Bahia veio para Teófilo Otoni após a abolição da escravidão, em 1888 para trabalhar como mão-de-obra na ferrovia. A concentração desses trabalhadores ocorreu na Margem da Linha, local escolhido por ser próximo às suas atividades laborais. Na comunhão do trabalho exaustivo e a rigidez das punições trabalhistas, no confronto com a polícia, na repressão do Estado que marginalizava a população majoritariamente negra, se fortaleceu a identidade desse ferroviário, seu autorreconhecimento como agente ativo de sua própria história (SANTOS, 2016, p. 36). A ferrovia foi extinta em 1966, e parte dessa memória se apagou. Em 2023, o Núcleo de Pesquisa em Política, Educação e Cidadania (NUPPEC), com registro no CNPq, iniciou um trabalho de pesquisa sobre a comunidade Margem da Linha, conseguindo mapear um rico material existente (fotografias, peças e equipamentos ferroviários, vestimentas) resultando na publicação do livro “Pretas e pretos Bahiminas: vivências e memórias do quilombola Margem da Linha/Teófilo Otoni-MG” (2025). Esse material tem como objetivo oferecer suporte para resgatar a memória dessa importante comunidade quilombola denominada Margem da Linha. O trabalho de identificação do território foi realizado, sendo que o grande desafio é fazer com que a comunidade de auto reconheça, pois o apagamento da memória negra ocorre na sociedade branqueada vivida no Brasil, acrescido ao fato da ferrovia ter sido extinta em 1966, forçando os trabalhadores a migrarem para outros locais.
Em um mundo globalizado, onde as informações e a cultura são elementos descartáveis e mercantilizados, reconstruir a história de um povo, uma região, uma localidade, é essencial para formação do cidadão, onde este se reconheça como agente ativo e transformador social, elevando a sua autoestima e sua capacidade de reflexão do contexto em que vive (TOURAINE, 1998). Assim, em um momento onde se tem valorizado de forma crescente, em todo o mundo, os patrimônios históricos, os bens móveis e imóveis, materiais e imateriais, inclusive como elemento gerador de emprego e alternativa econômica, as produções regionais são fundamentais para consolidação deste processo (HALL, 2006). Através dessa perspectiva o território torna-se referência privilegiada para analisar as tensões e arranjos múltiplos dos grupos: “Qualquer projeto no espaço que é expresso por uma representação revela a imagem desejada de um território, de um local de relações” (RAFFISTIN, 1993, p.45). Segundo Rogério Haesbaert (2004) o território é múltiplo, carrega dimensões políticas, econômicas e culturais. Os territórios se caracterizam desde as mais tradicionais, como o Estado até territórios multiidentitários com identidades territoriais particulares. A partir da relação território e identidade pode-se construir a categoria Território Negro. De acordo com Maria de Lourdes Bandeira (1991), a classificação de território negro se dá como sujeitos coletivos, se realizando através da comunhão de valores dos parentescos e, principalmente, de rede de solidariedade construída para o enfrentamento dos valores impostos pelos brancos. Ao mesmo tempo, se torna “um instrumento de autoidentificação da comunidade” (Bandeira 1991, p.21). Portanto, território não apenas como espaço mas também como relação. É um espaço com identidades comuns, mas também uma referência no sentido de pertencimento a grupo e uma posição de enfrentamento. No caso específico da história do Vale do Mucuri, por mais de um século e meio foram produzidas pesquisas e relatos ignorando a escravidão ou a presença de grupos africanos ou afrodescendentes na formação da região. Privilegiando atores como a figura de Teófilo Ottoni ou de grupos como os imigrantes alemães, há uma lacuna a ser preenchida sobre a participação da população negra na formação do Mucuri (SANTOS, 2018). O projeto parcialmente é uma continuidade do projeto de extensão "Conhecendo a História do Vale do Mucuri", mas assume um perfil mais voltado para a comunidade negra, trazendo um resgate da memória de uma população tradicionalmente apagada da história oficial. Ao mesmo tempo, cumpre um importante papel de dar o retorno à comunidade de um projeto de pesquisa que vem sendo desenvolvido na Margem da Linha pelo NUPPEC, "Comunidade Quilombola Margem da Linha: o resgate da cultura afromucuriense", registrado na PRPPG. Nesse sentido, o projeto atende as diretrizes propostas pelos trabalhos de extensão: Interação Dialógica; Interdisciplinaridade e interprofissionalidade; indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão; impacto tanto na Formação do estudante quanto na transformação social.
Geral Desenvolver ações para que a Comunidade Margem da Linha seu autorreconhecimento enquanto remanescente quilombola. Específicos - Desenvolver junto à comunidade os resultados das pesquisas do projeto "Comunidade Quilombola Margem da Linha: o resgate da cultura afromucuriense", objetivando trazer reflexões e ações que relacionem memória e cidadania à cultura afrodescendente na região do Vale do Mucuri; - Valorizar a história local, despertando na comunidade o sentimento de pertencimento; - Despertar na comunidade a preservação da memória como importante instrumento de cidadania; - Sensibilizar a comunidade para a importância da preservação do acervo ainda existente sobre a história local; - Estimular os acadêmicos a aproximar do contexto vivido, colocando o Corpo Discente em contato com a realidade brasileira, oportunizando outras alternativas de aprendizado. - Estimular e dar suporte a trabalhos envolvendo o resgate de manifestações culturais, como os afrodescendentes e os indígenas; - Identificar a presença de elementos culturais afro na Comunidade Margem da Linha.
- Organizar o acervo do espaço museal da Associação Cultural dos Ferroviários Bahia e Minas (ACFBM); - Trabalhar com eventos e palestras, tendo como tema a questão quilombola, nas escolas e associações dos bairros localizadas no território Margem da Linha.
Serão organizadas palestras para serem realizadas em escolas e associações no território do quilombola Margem da Linha. Concomitantemente, será feita a catalogação e digitalização das peças do museu da ACFBM. Este foi inaugurado no início de 2026.e falta catalogar as peças, incluir no IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus) e digitalizar o material para incluir no Museu Virtual Vale do Mucuri. Em relação à ética, por ser um projeto de proposta inclusiva, é pautado no diálogo, na troca, trans e interdisciplinaridade, garantindo as práticas horizontais recíprocas que favoreçam as trocas de saberes e experiências entre universidade e sociedade. Valoriza a diversidade e a diferença, reconhecendo que é na multiplicidade que crescemos,nos desenvolvemos e nos enriquecemos.
ACHTSCHIN, Márcio. A Filadélfia não sonhada: escravidão no Mucuri do século XIX. Teófilo Otoni: n/c. 2008. ___________. Formação econômica, política, social e cultural do vale do Mucuri. Teófilo Otoni: n.c, 2018. ______________Nas margens da linha: território negro e o lugar do branco na ocupação urbana na cidade de Teófilo Otoni em meados do séc. XX. Revista Espinhaço, 2016, 5 (1): 32-41. BANDEIRA, ML. 2016. Terras negras: invisibilidade expropriadora. Terras e territórios de negros no Brasil. Textos e debates: núcleo de estudos sobre identidade e relações interétnicas. [online] URL: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/1262 36/Textos%20e%20Debates%20No%202.pdf?sequence=2 &isAllowed=y CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO ELOY FERREIRA DA SILVA. Relação das comunidades negras quilombolas em Minas Gerais. Belo Horizonte, 2021. Disponível em: https://www.cedefes.org.br/relacao-das-comunidadesnegras-quilombolas-em-minas-gerais/. Acesso em 07 abr. 2022. ELEUTÉRIO, Arysbure Batista. Estrada de Ferro Bahia e Minas: a ferrovia do adeus. Teófilo Otoni, 1996. GIFFONI, José Marcello Salles. Trilhos arrancados: história da Estrada de Ferro Bahia e Minas (1878-1966). UFMG. p. 307. Tese de doutorado. Belo Horizonte, 2006. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11 ed. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. HAESBAERT, R. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. KARNAL, Leandro. (org). História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas.6. ed. São Paulo: Contexto, 2010. MEDEIROS, Antônio José. Ideias e práticas de cidadania. União: Cermo, 2002. MOREIRA, Ramom Pereira de Jesus. MARTA, Felipe Eduardo Ferreira. FRAGA, Estefânia Knotz Canguçu. Entre memórias e conflitos: a comunidade negra rural de Helvécia e o reconhecimento como remanescente quilombola (2002 – 2018). Projeto História, São Paulo, v. 71, pp. 239-268, Mai.-Ago., 2021. RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993. SANTOS, Valdir Nunes dos. A dança bate-barriga em Helvécia (Bahia/Brasil) : uma performance afrobrasileira de coesão social. Universidade de Lisboa. Tese de doutorado. Lisboa, 2017. ___________. Entre a festa e os ofícios na comunidade negra de Helvécia: performances afirmam identidades. In: Santuários, 2014, Alandroal, Portugal, 2014, v. 2. TOURAINE, Alain. Igualdade de diversidade: o sujeito democrático. Bauru: EDUSC, 1998.
A atividade envolverá as escolas instaladas dentro da Comunidade Quilombola Margem da Linha, buscando trabalhar com o autorreconhecimento quilombola junto aos estudantes e professores.
O discente trabalhará com temas relacionados à memória, direitos humanos, cidadania, conseguindo relacionar as atividades acadêmicas com a área de educação escolar.
O conteúdo é trabalhado no curso de Serviço Social nas disciplinas Antropologia Cultural e Serviço Social, além da disciplina Formação Social, histórica e política do Brasil. No campo da pesquisa, está relacionado com a pesquisa registrada no CEP "Comunidade Quilombola Margem da Linha: o resgate da cultura afromucuriense"
O discente entrará em contato com realidade relacionada às comunidades quilombolas, suas dificuldades e desafios para constituição desse grupo. Especialmente os estudantes de serviço social, que vão lidar diretamente com esse grupo.
A proposta de buscar nos jovens seu autorreconhecimento é de grande impacto para a comunidade, conseguindo construir nestes sua identidade cultural, direito assegurado a todo cidadão.
Serão divulgados no instagram do Museu Virtual Vale do Mucuri (MUVIM)
Público-alvo
Discentes do Ensino Básico das escolas do território Margem da Linha
Municípios Atendidos
Teófilo Otoni - MG
Parcerias
Nenhuma parceria inserida.
Cronograma de Atividades
Carga Horária Total: 4 h
- Manhã;
Catalogação das peças do museu da ACFBM
- Manhã;
Palestras com professores e alunos das escolas localizadas no Quilombola Margem da Linha